Do bife à essência, o Café de São Bento chega a Cascais
Artigo Publicado no Observador: https://observador.pt/2025/04/09/do-bife-a-essencia-o-cafe-de-sao-bento-chega-a-cascais/
A mesma carta, a mesma decoração, a mesma essência. Vindo de Lisboa, o Café de São Bento chegou a Cascais “rigorosamente igual” ao irmão (gémeo). Cria agora uma nova história — escrita na esplanada.
É quase que um jogo para descobrir as diferenças. Será o som da campainha? O tom de encarnado do veludo que cobre os bancos? Ou a textura do bife, que, sabemos, é protagonista desta casa há já mais de 40 anos? O nível é bem avançado, podemos admitir, porque quem estabeleceu as regras deste jogo fê-lo para que não se notassem as (muito poucas) diferenças. “Queremos abrir iguais”, revela Miguel Garcia, o responsável do Grupo São Bento, que há três anos adquiriu o icónico café de Lisboa na rua com o mesmo nome. Agora, é em Cascais que abrem um “irmão gémeo que nasceu depois”, desta vez no número 71 da Alexandre Herculano, que toca na Rua Amarela.
“A cópia exata está na essência”, diz-nos o também proprietário do Bougain e do Corleone, umas ruas mais abaixo na mesma vila. Onde é que esta se encontra? Nos elementos: “Latão, madeira, veludo e o espelho oxidado. São os elementos principais que fazem o espaço do Café de São Bento”, enumera ao mesmo tempo que se mantém atento à campainha — igual à do irmão. Apesar de só abrir oficialmente esta quarta-feira, 9 de abril, o movimento já se fazia sentir dias antes, com dezenas de clientes a passar por esta rua e a dar conta que agora existe aqui um Café de São Bento versão Cascais. Pela janela da esplanada — já lá vamos — há ainda quem reconheça Miguel Garcia de outras andanças, perguntando com curiosidade se já se pode almoçar por ali. “Ainda não, só na próxima semana”, responde o proprietário. “Tem sido uma loucura”, comenta com o Observador.
É nestas janelas que encontramos a primeira diferença. Se em Lisboa o Café de São Bento invoca os speakeasy dos anos 20 e 30, estando por isso mais virado para dentro, em Cascais a luz da vila e a proximidade ao mar convida a oferecer aos clientes uma experiência mais aberta. Por isso, as janelas estão vestidas a meio com uma leve cortina branca que não impede a luz de entrar. “Como eu tinha esta luz natural não quis pôr cortinas de veludo. Acho que ia dar um ar muito pesado, tendo em conta que estamos em Cascais”, explica Miguel Garcia, acrescentando que o novo Café de São Bento vais buscar mais o estilo de uma brasserie francesa: “É muito típico em Paris terem a cortina no meio da janela para dar privacidade a quem está cá dentro e mesmo assim deixa entrar luz”. Também inspirada nas brasseries está a pequena esplanada de 16 lugares, uma das outras diferenças de Lisboa, que já antecipa as noites quentes de verão: “Vai ser concorrida”.
Tanto cá dentro, nas cadeiras e mesas a que já estamos habituados, como lá fora, a carta é “rigorosamente igual” à de Lisboa. Sem tirar nem pôr. No último mês, o chef Pedro Mota esteve a aprender os segredos do bife com Manuel Fernandes na casa-mãe para colocar em ação em Cascais sem falhas. Com os mesmos preços, nomes e sabores, os menus são também eles irmãos gémeos, não faltando por isso as clássicas entradas mais pedidas: foie gras de pato (14,50€) com chutney de maçã, pêra e tomate e pão torrado, os camarões al ajillo (14,50€) com malagueta e o steak tartare (15€) de lombo de novilho servido com tostas. Nos principais, não se encontram diferenças na receita de há mais de 40 anos, na qual somos apenas convidados a pedir mal, médio ou bem passado o bife do lombo (200g a 30€) ou da vazia (200g a 27€), que pode vir decorado com o ovo à cavalo ou de lado para rebentar depois com a batata frita em palito (4€) ou com o pão que sobra do couvert (4€). Mantêm também o menu executivo que de segunda a sexta-feira serve prato com uma entrada ou sobremesa pelo valor de 27 euros ao almoço.
“O Café de São Bento está muito estabelecido. Vão fazer 43 este ano. A comparação vai ser sempre com o Café de São Bento. O bife está afinado, o serviço, o espaço, a música. As pessoas vão comparar tudo. E vão comparar com algo que está estabelecido há 42 anos. É ingrato, não é? Então é um concorrente quase desleal. As pessoas têm a expectativa que não seja menos do que aquilo ao qual já estão habituadas”, explica, afirmando que também aqui se sente “dentro do Café de São Bento, e isso é importantíssimo”. Um dos fatores é também o serviço — ou a arte do bem servir. Com o mesmo uniforme com colete em xadrez, a equipa de sala da nova steakhouse segue o mesmo modelo da equipa irmã, com quem trabalharam no último mês. “Toda a gente sabe que a arte de bem servir e de bem receber acontece no Café de São Bento. As pessoas que lá estão são artistas desta profissão, como se fossem grandes pintores de quadros. Estão lá há quase 40 anos, todos os dias. Conhecem o avô, o pai, o filho, o neto. Todas as gerações. É espetacular”. E quanto aos habitués que já estão familiarizados com a equipa de Lisboa? “Ninguém os vai esquecer, fazem parte da história, mas a ideia também é criar novos laços com os clientes. Para que as pessoas que aqui estão tenham essa oportunidade”. Estes novos laços começam logo no momento em que nos abrem a porta verde e passamos as cortinas de veludo que nos desvendam a cozinha aberta e o balcão.
Mas, como é que se gere esta “competição” entre um lugar cheio de história e uma abertura que, apesar de manter a essência, não deixa de ser nova? “Vamos trazer a história do Café de São Bento e escrever uma nova. Mas a história vai ser sempre a de São Bento, a história contada vai ser sempre esta. A origem do Café. Mas a ideia é essa. Eu gostava muito que o Café de São Bento ficasse aqui durante muitos anos, honestamente”, confessa.
Na cozinha, Pedro Mota continua a fazer chegar à mesa a carta exata do Café de São Bento, com o bife à portuguesa (do lombo a 30€/200g; 35€/250g ou da bazia a 27€/200g) com batatas fritas às rodelas, o bacalhau gratinado (23€) e as sobremesas de sempre. A tarte tatin de maçã (9€) está por cá, logo no início da lista, seguida dos tradicionais leite creme (8€) e toucinho do Céu (9€), da tarte de lima (9€), de “O melhor bolo de chocolate do mundo” (9€) e do cheesecake caseiro de frutos vermelhos (9€). A acompanhar, para além dos clássicos cocktails, há um vinho especial, lançado mesmo a tempo desta nova abertura — e para celebrar os 43 anos de história. Reserva de 2021, o vinho do Café de São Bento foi produzido em parceria com a Herdade Papa Leite e resultou em 600 garrafas de tinto servidas aqui.
A última diferença que encontramos neste São Bento é o horário. Tal como o irmão, está aberto todos os dias da semana, incluindo sábado e domingo. É ao fim de semana que surge a novidade: quem passar por esta rua de Cascais vai ver sempre o Café de São Bento aberto e disponível para receber clientes, das 12h00 às 00h00, ao contrário de Lisboa que abre das 19h00 às 1h00, sem almoço.

